domingo, 30 de dezembro de 2007

A prosa em 2007, o verso em 2008



**
Em 2008, citarei-me assim: aspas sob aspas.
Denotando uma citação para algo que eu já escrevi

" " Outrora não nos despedimos.
Fomos vítimas de um capricho do destino,
apenas para concedê-lo, o prazer do nosso reencontro " "
**


Dois mil e sete anos. São muitos dias. Mas para 2007 foram apenas 365 dias, ou serão.
Um ano ímpar. Duas vezes! Um ano em que eu encontrei um Rodrigo que estava perdido há algum tempo, precisando de umas porradas para encontrar-se. Um ano em que reconheci novos amigos, nos mesmos risos e rostos de sempre. Um ano em que pude consagrar novas amizades. Um ano em que ouvi e fui ouvido. Um ano que servirá de parâmetro para o porvir. O ano de uma paixão adolescente, inconsequente e avassaladora. Que me trouxe a inspiração e levou-a embora por uma porta que estava fechada, implorando por ser aberta. O ano em que eu pude ter mais e mais certeza que é possível o amor. A verdade. A paz. Um ano em que consegui me emocionar profundamente por apenas ter conseguido incutir confiança em um coração, apenas por ser eu. Um ano em que descobri alguns talentos, e assim, acabei descobrindo a mim. Tempos difíceis vieram, a porta da desistência estava escancarada mostrando-se como a opção mais atraente, esperando apenas uma escolha errada. Mas meus amigos também vieram novamente e como não podia ser diferente, resolvi fechar esta porta, de certa forma, para sempre. Neste ano tive a certeza de ser uma pessoa abençoada, cercada por bons anjos... Um cara realmente de sorte.

Um ano velho, que espero renová-lo e ponderá-lo da maneira correta. Da maneira que me faça mais ser humano, maior. Um ano em que conheci pessoas que ficarão para sempre dentro do meu coração. Algumas, por sorte, terei o prazer de tê-las com alguma regularidade nos meus dias, outras nem tanto. O ano em que eu mais sonhei na minha vida. O divisor de águas, entre sonhar e não sonhar. Preferirei por sonhar, mais e sempre. Foi também o ano em que eu mais realizei sonhos. Um ano em que eu tive a certeza de um olhar e a incerteza de não saber apenas. Um ano em que fiz uma escolha errada. Um ano que me ensinou como nenhum outro havia ensinado. Um ano que abriu as portas do futuro que tenho pela frente a começar pelos 365 dias de 2008. Um ano em que preferi à fidelidade aos meus valores do que aos meus hormônios. Um ano velho, diferente. Que esquecerei aos poucos os momentos difíceis e longos, e saudoso, lembrarei dos momentos felizes e lacônicos, com uma bagagem maior e mais rica.

Em poucas horas estaremos comemorando um ano novo. Gostaria apenas da certeza de que é válido a comemoração para cada um de nós. Imensamente confiante na renovação. Com a certeza de de apenas mais um dia, mas com a esperança da eternidade.

Que venha 2008!


por mim

sábado, 15 de dezembro de 2007

a Deus dará




**
Eu era menor de idade quando tirei essa foto
Três Torres e a visão do Rio

"hoje eu vendo sonhos
ilusões de romances
te troco minha vida por um troco qualquer
é o que chamam de destino
eu não vou lutar com isso
que seja assim enquanto é"
**


é essa saudade que está aos pulos,
ao Deus dará,
que me enche os pulmões do teu sangue,
que me sangra o ar.
toma-me distraído num sábado à tarde,
pra te cantar em cores,
e resumir as flores,
nessa existência que te prentende recriar,
num neologismo que eu nem sei se existe,
mas que tenta em sua arte, expressar amor

por mim

domingo, 9 de dezembro de 2007

Tabacaria


**
e o que incomoda é essa saudade que está aos pulos
ao deus-dará.

primeiro texto, off rodrigo por aqui.
mas esse é o melhor, do melhor heterônimo, do melhor escritor
Álvaro de Campos, Fernando Pessoa
**

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.





sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Românticos


**
Nokia N73 - Gávea ou Leblon?

"Talvez eu seja o último romântico (...)
só falta eu te querer, te ganhar e te perder"

considerando, justa, toda forma de amor :)
**


Não existe classe média para romântico.
Ou são ricos, ou são pobres.
Não tem meio termo.
Se é pra amar, que seja amor.
Se é pra sofrer, que seja dor.

Se fosse advérbio, seria de intensidade
Caso se descobrisse em verbo, algo como transitivo e direto
Na escolha de um número, talvez o dois
Mas se fosse tempo verbal, seria apenas indicativo
Sem tempo!

Porque o tempo é o par romântico do amor
Traz de volta, leva embora, apaga da memória
Faz história virar pó, opção pro dia seguinte...
O tempo depois vira amigo do amor
Andam de mãos dadas na eternidade passada
Como tudo aquilo que não foi,
aquilo que deixamos pra depois

Mas o amor dura um tempo, o suficiente para medir o seu teor
Quando o tempo pro amor vira dor é porque faltou convidados
É festa! É festa! de agregados...
E o romântico não tá nem ai
Seja na esquina, seja por ai
O romântico quer é explodir

Vai no fundo do poço
Vai no céu do amor, que é pra sentir medo
Que é pra sentir o amor
Se entregar e provar no sentimento o seu sabor

por mim

domingo, 2 de dezembro de 2007

Nua




**
"Assim que o amor entrou no meio, o meio virou amor O fogo se derreteu, o gelo se incendiou E a brisa que era um tufão Depois que o mar derramou, depois que a casa caiu O vento da paz soprou"
**


A Lua está nua,
enquanto não cumprir
a promessa do perdão,
pelos dias de solidão,
que passei longe de ti.

Está nua, totalmente nua,
enquanto adoração pela sua,
oh a sua, a sua...

A sua doce canção
que fará rima de coração,
de coração... com amor!

por mim